O cheiro de dendê no corredor B já entrega: algo está diferente no São Joaquim. Nesta quarta, a administração do mercado e a associação de feirantes apresentaram a Rota do Sabor — um percurso gastronômico que passa por 40 quitandas espalhadas pelos pavilhões. A proposta é simples na frase e complexa na prática: mostrar que comer bem em Salvador não exige endereço chique, só disposição para encarar o movimento do mercado.
O mapa, impresso em cartaz ilustrado e disponível em versão digital, marca paradas por tipo de prato: fritura, ensopado, doce, fruta e bebida. Cada quitanda participante exibe adesivo na banca. Há sugestão de percurso mínimo — três paradas — e roteiro completo para quem quer passar a manhã inteira entre panelas e conversa.
Marina Costa percorreu o trajeto em duas horas — tempo realista, sem correria. Na primeira parada, acarajé com camarão e vinagrete por R$ 14. Na segunda, tapioca de carne do sol com queijo coalho por R$ 12. Na terceira, suco de sapoti direto da polpa, sem açúcar, por R$ 8. "Aqui o preço ainda conversa com o bolso de quem compra legume toda semana", comentou Seu Geraldo, feirante há 35 anos no pavilhão de frutas.
Quem ganha com a rota
Para feirantes, a aposta é visibilidade. Quitandas de corredores menos visitados entram no mapa ao lado de nomes já conhecidos. Para turistas, o benefício é orientação: o São Joaquim é enorme, e sem guia é fácil circular sem achar o que se procura. Para moradores, a rota funciona como lembrete de que o mercado continua sendo infraestrutura da cidade — não só cenário para foto.
A iniciativa não é pontual: há calendário de degustações temáticas até setembro, com semanas dedicadas a frutos do cacau, peixe fresco e doces de colher. A associação pede que visitantes evitem horário de pico de entrega (entre 5h e 7h) para não atrapalhar o fluxo de atacado.
Há ressalvas. O mercado precisa de manutenção em alguns trechos — problema antigo, citado por feirantes na apresentação. Banheiros públicos passam por reforma parcial, com banheiros químicos temporários nos fins de semana. Acessibilidade melhorou em rampas nos corredores A e B, mas nem todo pavilhão está nivelado.
Se você nunca foi, vá de boné, tênis confortável e dinheiro em espécie — nem toda banca aceita cartão. Se já conhece, use a rota como desculpa para redescobrir o lugar. Cidade se entende comendo onde quem trabalha come. E o São Joaquim, com 40 quitandas de braços abertos, está pronto para provar isso de novo.